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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Proposta Indecente !

Hoje em dia, o exercício da medicina não tem sido fácil.
Diversos motivos nos levam ao desgaste excessivo e a um grau de estresse sem explicação. Há diversas pesquisas, inclusive, mostrando que a média de vida dos médicos chega a ser quinze anos menor que a da população em geral.
Claro, a enorme maioria está acima do peso, não exerce atividade física regularmente, faz alimentações inadequadas, dorme mal, muitos a base de medicamentos e a pressão do número excessivo de horas trabalhadas com a obrigação de produzir sempre bons resultados leva a um estresse enorme.
Isso tudo está intimamente ligado à baixa remuneração pelos serviços prestados. Os convênios e o próprio SUSto sucatiaram o serviço de tal forma, que é praticamente impossível exercer uma medicina de qualidade com os valores pagos por eles. É isso que leva o médico a trabalhar em diversos locais e a querer fazer “volume de atendimento“, já que recebendo valores entre 20 e 30 reais por uma consulta, a coisa não pode mesmo funcionar bem.
No meu caso, por exemplo, sou sempre questionado pelo fato de não atender nenhum convênio. E após um ano de paralisação do meu serviço de pediatria, o reabri com outra filosofia de trabalho e atendimento. A consulta ter sempre caráter particular com um preço normal, cobrado por todos os médicos e sem atender a nenhum convênio; com isso ter menos atendimentos/dia, mas procurando fazer uma consulta de qualidade sem pressa e com o número de retornos necessários até que o resultado ideal seja alcançado. E as consultas pediátricas geram sempre retornos, as vezes três, quatro ou até mais. E os retornos não são cobrados dos pacientes, como também nunca são pagos pelos convênios.
E a proposta indecente?
Veio hoje, como vem sempre, de atender aos FAJUTOS planos de saúde, que são os cartões de desconto vendidos por espertalhões que enchem os bolsos de grana em troca do nada. Ou melhor, em troca do serviço dos outros.
Vou explicar: hoje uma pessoa me procurou perguntando se eu atendia o plano dele, para levar o filho ao consultório.
Como é o plano?
Ele pagou seis mensalidades de R$75,00 e teve direito a um cartão de saúde do tal plano, que terá validade por dois anos. Daí, ele leva o filho ao meu consultório, eu dou um desconto de 50% no valor da consulta e pronto!!!!!!!!!! Pronto mesmo, mais nada em troca. O plano não irá complementar o valor da consulta, como nenhum desses cartões FAJUTOS nunca complementaram mesmo.
No final dos anos 90 tive a infelicidade de aceitar alguns planos desses, mas logo percebi a esperteza e a desonestidade do fato e cortei de vez.
Estes cartões, nunca foram e nunca serão planos de saúde e só beneficiam quem os fabrica e vende.
Uma funcionária de um determinado “plano” desses, me disse uma vez que já haviam vendido em toda a região de Diamantina, mais de nove mil cartões, sendo cada um a R$100,00. Ou seja, um lucro de novecentos mil reais (R$900.000,00), pra não ter trabalho algum e não oferecer nada em troca. Inventam que é um plano, imprimem um cartão e o vendem aos infelizes desiludidos e desamparados pelo péssimo serviço público de saúde, e os babacas médicos, dentistas psicólogos, etc., passam a dar descontos de 50% sem receber nenhuma complementação em troca, apenas com a cantada de que seus nomes são indicados nas propagandas. Como se alguém procurasse atendimento pra cuidar da saúde através de propagandas. A nossa propaganda é o boca a boca, o serviço bem prestado, o paciente respeitado e atendido da melhor forma, seja ele paciente do SUS, convênios, particulares ou mesmo de graça.
Mas me submeter às imbecilidades dos espertalhões, que são inclusive condenadas pelo Conselho Federal de Medicina... JAMAIS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

ass. Rodriguim.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Médicos versus planos de saúde. ( Dráuzio Varella)

Médicos que vivem da clínica particular são aves raríssimas. Mais de 97% prestam serviços aos planos de saúde e recebem de R$ 8 a R$ 32 por consulta. Em média, R$ 20.

Os responsáveis pelos planos de saúde alegam que os avanços tecnológicos encarecem a assistência médica de tal forma que fica impossível aumentar a remuneração sem repassar os custos para os usuários já sobrecarregados. Os sindicatos e os conselhos de medicina desconfiam seriamente de tal justificativa, uma vez que as empresas não lhes permitem acesso às planilhas de custos.
Tempos atrás, a FIPE realizou um levantamento do custo de um consultório-padrão, alugado por R$ 750 num prédio cujo condomínio custasse apenas R$ 150 e que pagasse os seguintes salários: R$ 650 à atendente, R$ 600 a uma auxiliar de enfermagem, R$ 275 à faxineira e R$ 224 ao contador.
Somados os encargos sociais (correspondentes a 65% dos salários), os benefícios, as contas de luz, água, gás e telefone, impostos e taxas da prefeitura, gastos com a conservação do imóvel, material de consumo, custos operacionais e aqueles necessários para a realização da atividade profissional, esse consultório-padrão exigiria R$ 5.179,62 por mês para sua manutenção.

Voltemos às consultas, razão de existirem os consultórios médicos.
Em princípio, cada consulta pode gerar de zero a um ou mais retornos para trazer os resultados dos exames pedidos. Os técnicos calculam que 50% a 60% das consultas médicas geram retornos pelos quais os convênios e planos de saúde não desembolsam um centavo sequer.
Façamos a conta: a R$ 20 em média por consulta, para cobrir os R$ 5.179,62 é preciso atender 258 pessoas por mês. Como cerca de metade delas retorna com os resultados, serão necessários: 258 + 129 = 387 atendimentos mensais unicamente para cobrir as despesas obrigatórias.
Como o número médio de dias úteis é de 21,5 por mês, entre consultas e retornos deverão ser atendidas 18 pessoas por dia!
Se ele pretender ganhar R$ 5.000 por mês (dos quais serão descontados R$ 1.402 de impostos) para compensar os seis anos de curso universitário em tempo integral pago pela maioria que não tem acesso às universidades públicas, os quatro anos de residência e a necessidade de atualização permanente, precisará atender 36 clientes
todos os dias, de segunda a sexta-feira. Ou seja, a média de 4,5 pacientes consultados por hora, num dia de oito horas ininterruptas.
Por isso, os usuários dos planos de saúde se queixam: "Os médicos não examinam mais a gente"; "O médico nem olhou a minha cara, ficou de cabeça baixa preenchendo o pedido de exames enquanto eu falava";
"Minha consulta durou cinco minutos".
É possível exercer a profissão com competência nessa velocidade?
Com a experiência de quem atende doentes há quase 40 anos, posso garantir-lhes que não é. O bom exercício da medicina exige, além do exame físico cuidadoso, observação acurada, atenção à história da moléstia, à descrição dos sintomas, aos fatores de melhora e piora,uma análise, ainda que sumária, das condições de vida e da personalidade do paciente. Levando em conta, ainda, que os seres humanos costumam ser pouco objetivos ao relatar seus males, cabe ao profissional orientá-los a fazê-lo com mais precisão para não omitir detalhes fundamentais. A probabilidade de cometer erros graves aumenta perigosamente quando avaliamos quadros clínicos complexos entre 10 e 15 minutos.
O que os empresários dos planos de saúde parecem não enxergar é que, embora consigam mão-de-obra barata - graças à proliferação de faculdades de medicina que privilegiou números em detrimento da qualidade -, acabam perdendo dinheiro ao pagar honorários tão insignificantes: médicos que não dispõem de tempo a "perder" com as queixas e o exame físico dos pacientes, pedem exames desnecessários.
Tossiu? Raios X de tórax. O resultado veio normal? Tomografia computadorizada. É mais rápido do que considerar as características do quadro, dar explicações detalhadas e observar a evolução. E tem boa chance de deixar o doente com a impressão de que está sendo cuidado.
A economia no preço da consulta resulta em contas astronômicas pagas aos hospitais, onde vão parar os pacientes por falta de diagnóstico precoce, aos laboratórios e serviços de radiologia, cujas redes se expandem a olhos vistos pelas cidades brasileiras. Por essa razão, os concursos para residência de especialidades que realizam procedimentos e exames subsidiários estão cada vez mais concorridos, enquanto os de clínica e cirurgia são desprestigiados.
Aos médicos, que atendem a troco de tão pouco, só resta a alternativa de explicar à população que é tarefa impossível trabalhar nessas condições e pedir descredenciamento em massa dos planos que oferecem remuneração vil. É mais respeitoso com a medicina procurar outros meios de ganhar a vida do que universalizar o cinismo injustificável do "eles fingem que pagam, a gente finge que atende".
O usuário, ao contratar um plano de saúde, deve sempre perguntar quanto receberão por consulta os profissionais cujos nomes constam da lista de conveniados. Longe de mim desmerecer qualquer tipo de
trabalho, mas eu teria medo de ser atendido por um médico que vai receber bem menos do que um encanador cobra para desentupir o banheiro da minha casa. Sinceramente.